Por Edvin Markstein Zimmermann
O Android é um sistema
operacional da Google voltado para aparelhos celulares e tablets. Já está em
sua sétima versão (4.0 Ice Cream Sandwich), possui várias empresas importantes
de hardware utilizando o sistema (como Sony Ericsson, Motorola, LG, HCT),
inúmeras interfaces customizadas por fabricantes e operadoras de telefonia,
vários tamanhos de telas tanto de celulares quanto tablets, e milhares de
desenvolvedores de apps no seu Android Market. Não é surpresa nenhuma que não
exista um padrão de design definido, o que implica em dificuldades para o
usuário como incompatibilidade de aplicativos para hardwares, problemas de
visualização de um mesmo app entre tablets e celulares, e até mesmo bloqueio de
alguns apps pelas operadoras em benefício próprio e prejuízo ao usuário. Além é
claro do problema estético: aplicativos com interfaces confusas, sem atrativos
e com uma experiência de uso frustrante.
Estes problemas não
ocorrem no seu principal concorrente, a Apple, já que o hardware desenvolvido
(iPhone, iPod e iPad) possuem um padrão definido e, assim como o design dos
seus produtos, o software também passa por um padrão de aprovação e
desenvolvimento. Este padrão torna-se mais fácil de controlar, porque a Apple,
além de ser a única fabricante do software e do sistema operacional (iOS),
também tem em sua loja de aplicativos, a App Store, uma fonte rentável de
lucros e sabe que o usuário teria receio em comprar algo que não está
totalmente familiarizado. Isto fez com que ela cuidasse desde o começo do
design dos aplicativos.
Agora, a Google tenta
criar um padrão para evitar a fragmentação ao lançar um manual para
desenvolvedores de aplicativos. O Google criou um site onde demonstra como deve
ser a criação de um app e que utilize todo o potencial disponibilizado na
versão 4.0 ICS. É um manual de estilo, não é algo imposto, mas para quem deseja
desenvolver com seriedade e criar produtos com uma abordagem profissional, é
altamente recomendável a leitura e aplicação dos exemplos do site. O manual é
completo e bastante detalhado, abrangendo tudo o que diz respeito a layout,
design, navegação e utilização dos recursos do sistema operacional de uma forma
clara e objetiva. Os cinco pontos mais importantes do manual são:
Tema - após a criação de
tantas versões do Android serem criticadas pela falta de estilo, a Google
resolveu dar uma atenção especial e criar um tema chamada Holo. Não é somente
um tema bonito e elegante, é uma imposição para os fabricantes de darem a opção
ao usuário de escolher entre o tema customizado da marca do hardware ou o Holo,
que a partir de agora é o tema padrão do Android. Isto vai facilitar a vida de
quem desenvolve, já que é uma garantia de visualização do seu app sem
intervenções da camada de interfaces customizadas. A vantagem do tema Holo é a
possibilidade do desenvolvedor utilizar um dos três estilos propostos, seja o
claro, o escuro ou o com a barra escura e o fundo claro. Certamente isto
facilitará a criação de layouts e deixará um tempo importante para o
desenvolvedor focar-se na aplicação.
Notificações - um dos
pontos fortes do Android é o seu sistema de notificações e, com uma interface
melhorada, a Google mantêm os dispositivos com seu sistema operacional. a
frente dos concorrentes. As novidades ficam por conta da utilização de
notificações apenas em momentos em que é preciso uma intervenção real do
usuário, sem popups desnecessários. E nada de detalhes técnicos nestes popups,
que se por um lado ajudam um desenvolvedor a depurar possíveis erros, por outro
confunde muito o usuário final com informações que para ele são desnecessárias,
e algumas vezes, até mesmo assustadoras. A recomendação é focar apenas no que é
realmente importante para o usuário final.
Respostas físicas e
visuais - quando você toca a tela para escrever um texto, você sente que uma
letra ou número foi pressionado. Esta é uma resposta tátil que o usuário gosta
de ter. O manual reforça a utilização deste feedback, explicando em detalhes
quando é necessário um tipo de resposta do sistema, seja visual, seja tátil.
Informações como uma cor diferente no fim de uma lista indica ao usuário que
não é necessário mais rolar a tela para baixo, pois ele já chegou ao final.
Assim como uma vibração suave indica que um botão foi pressionado, quando não é
uma opção deixar este botão com um visual diferente. Isto faz com que o usuário
saiba que o botão foi pressionado, apenas pela sensação que o aparelho
transmite através de vibrações sutis mais importantes.
Interface específica
Android - com tantas versões e tantos desenvolvedores, torna realmente difícil
para um usuário identificar se um app é apenas uma aplicação migrada às pressas
para o sistema Android, ou se não é até uma versão web que ele está usando no
momento. Isto tudo por falta de uma interface mais específica. Este problema
poderá ser resolvido nesta versão e com as diretrizes do manual proposto, pois
o erro de imitar interfaces de outros sistemas nas versões anteriores não é mais
repetido. A interface criada pela equipe de Matias Duarte prezou pela imposição
de um estilo que é facilmente reconhecido pelo usuário, sem causar confusão. Se
antes era fácil encontrar botões com layouts diferentes, mas que faziam
exatamente a mesma coisa numa aplicação, a partir desta sugestão de práticas e
utilização da nova interface, isto deve acabar.
Navegação - se antes
ficava a cargo do desenvolvedor dizer ao usuário como sua aplicação funcionava,
agora é recomendável que ela funcione de forma igual para cada app criado que
utiliza este manual. Isto quer dizer que, fazendo uma analogia com um sistema
operacional de desktop, ao invés de existir várias navegações como em vários
aplicativos, com menus e botões dispostos em locais diferentes e com ações sem
padronização, a experiência do usuário será muito mais próxima da navegação
web, onde é possível voltar uma página anterior através de botões do browser. A
implementação de um botão "voltar" acessível onde quer que você
esteja no seu app facilita a experiência do usuário, pois será possível navegar
mais intuitivamente, sem se perder entre telas. Uma implementação simples, mas
que cria um resultado esperado.
O Google criou um
problema para si quando lançou tantas versões de SO, quando não limitou as intervenções
em seu sistema pelos fabricantes e liberou a inclusão de apps em sua loja sem
maiores cuidados. O intuito claro era conseguir a maior quantidade de usuários
do sistema Android, e o objetivo foi alcançado. Cabe ao Google agora normalizar
este ambiente, para que o usuário tenha o Android como uma opção eficiente e de
qualidade, e não faça uma escolha apenas baseada em custos. O mercado de
entrada para smartphones e tablets já foi criado, cabe agora manter estes
usuários fiéis, e a interface do 4.0 ISC e este guia de boas práticas de
desenvolvimento são os primeiros passos para uma qualidade maior. Vai levar um
tempo para que isto aconteça, mas quando começar a haver resultados, o usuário
será o primeiro a perceber.
Para quem quer conhecer
um pouco sobre este guia de design Android, basta acessar o site http://developer.android.com/design/index.html
Edvin Markstein Zimmermann é analista programador sênior da área
de B2B da Vertis, companhia especializada em soluções de negócios baseadas em
tecnologia web.